"Tem cuidado, meu amor - cartas da prisão de Virgínia Moura e António Lobão Vital"; livro de Manuela Espírito Santo, Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto

“Tem cuidado, meu amor”

14 Fevereiro 2021

“Tem cuidado, meu amor” – cartas da prisão de Virgínia Moura e António Lobão Vital.

Um livro de Manuela Espírito Santo, publicado pela Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, sobre dois antifascistas, comunistas, companheiros de vida e de luta pela liberdade. 

Virgínia Moura, presa dezasseis vezes pela PIDE, entre 1949 e 1962, esteve em Caxias, nas cadeias no Porto e na sede da PIDE; nove vezes processada, três condenações nos Tribunais Plenários; e repetidamente agredida pela polícia em atos públicos.

A 4 de outubro de 1951, Lobão Vital é preso e internado na enfermaria do Aljube, seria preso e torturado várias vezes depois.   

“Minha Querida Virginia

Recebi, ainda há pouco tempo, a tua carta de 8 do corrente, que li e reli, na ansiedade de absorver todos os teus pensamentos e de concentrá-los todos em mim – de vivê-los com aquela intensidade de sentimentos, que diminui a própria distância que nos separa. E, efectivamente, apesar de estarmos muito longe um do outro, enquanto leio as tuas cartas, enquanto prolongo a sua leitura em silenciosa conversa contigo mesma – perdoa o paradoxo – , esta comunicação conduz-nos a uma maior aproximação, que vence as grades e os quilómetros que nos separam. Nunca, o tempo, a idade e até mesmo as circunstâncias, como as que vivemos neste momento, influíram na pureza dos nossos sentimentos. Escrevo-te hoje com a mesma emoção com que te escrevi as primeiras cartas. E já lá vão mais de vinte anos! É verdade que adquirimos uma maior experiência, por vezes bem dolorosa, mas essa experiência nem modificou nem alterou os meus sentimentos por ti. Perdoa dizer-te isto, mas quero afirmar-te com toda a clareza que não há situação alguma, por mais dura que seja, que possa influenciar os sentimentos que nos unem. Dizes-me na tua carta que quando sairmos em liberdade havemos de recuperar todo este tempo que estamos presos. Mas na própria prisão, com todas aquelas dificuldades que ela própria impõe, nós damos continuidade à vida que iniciámos com o nosso casamento, na medida em que pelas nossas acções e atitudes provamos que as nossas esperanças e aspirações não foram traídas. Assim, continuas tu sendo para mim a mesma Mulher, a mesma Virgínia, que comigo tem vivido uma vida , talvez agitada, mas sã e feliz! (…)

Muitas saudades do sempre teu

António

Caxias, 10. Fev. 55.”

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