Isabel Aboim Inglez

Isabel Aboim Inglez

07 Março 2021

Recordamos hoje, dia em que se assinalam 58 anos da sua morte, Isabel Aboim Inglez. 

José Gomes Ferreira chamava-lhe “A Indomável”. Outros, “A Mulher sem Medo”. 

Dirigente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, da Associação Feminina Portuguesa para a Paz, e do Movimento de Unidade Democrática (MUD) entre 1946 e 1948. Isabel Aboim Inglez foi a primeira mulher a fazer parte da comissão central do MUD e foi apoiante ativa das candidaturas de Norton de Matos, Arlindo Vicente e Humberto Delgado.  

Foi presa primeira vez pela PIDE em 13 de Dezembro de 1946, sendo libertada no dia seguinte, juntamente com outros membros da Comissão Central do MUD. Dois anos depois, em Janeiro l948, voltou a ser presa pela distribuição de 1500 exemplares de propaganda do MUD, sendo libertada dois meses depois. A terceira prisão, efetuada em pleno Tribunal Plenário, como testemunha de defesa de presos políticos, deveu-se à firmeza com que enfrentou o juiz presidente, que ordenou a sua prisão por três dias alegando “falta de respeito ao tribunal” e enviando-a para as Mónicas, prisão comum de onde saiu dizendo que “até tinha aprendido alguma coisa com as outras reclusas. tendo feito ali um estudo sociológico”.

A repressão do regime sobre Maria Isabel Aboim lnglez foi duplamente feroz, pela prisão e pela retirada dos meios de subsistência, quando já era viúva e mãe de cinco filhos.

Nasceu em janeiro de 1902, em Lisboa. Aos 20 anos casou com Carlos Aboim Inglez e aos 34 concluiu o curso de Ciências Histórico-Filosóficas, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Fundou, em 1938, o Colégio Fernão de Magalhães do qual foi Professora e Diretora. Em 1941, foi-lhe feito um segundo convite para ensinar na Universidade, ficando como assistente de Psicologia e professora de Filosofia Antiga e História da Filosofia Medieval. Lecionava na Universidade quando, em março de 1942, o marido morreu. É nessa altura que começam as perseguições políticas: primeiro na Faculdade e depois no Colégio que acabaria por ser encerrado em fevereiro de 1949, na sequência do papel que Isabel Aboim Inglez vinha assumindo. 

Proibida de sair do país para lecionar no Brasil, em resposta a um convite feito em 1953, e sem outros meios de subsistência, abriu um atelier de costura e começou a dar explicações. Em 1961, foram-lhe retirados os direitos políticos, vendo-se impossibilitada de integrar as listas da Comissão Democrática Eleitoral por Lisboa. O caso mereceu-lhe resposta no jornal “República” num artigo publicado a 31 de outubro de 1961 em que se lia:  

“[…] em meu juízo político a Democracia é um ideal de que temos de aproximar-nos cada vez mais pelas realizações da vontade firme dos povos. O impulso desse esforço construtivo da história tem no lema da moral kantiana a expressão da intenção que deverá animá-lo para mais rapidamente se atingir o ideal: ‘Trata a humanidade em ti e nos outros homens como um fim e não apenas como um meio’. Isto quer dizer que o homem rebaixando e amesquinhando os outros homens se avilta a si próprio.” 

Jamais perdeu nunca a consciência cívica e política, a coragem e dignidade que lhe são reconhecidas por quem a conheceu. Em julho de 1950, depois da homenagem a Bento de Jesus Caraça, Maria Lama haveria de lhe escrever: “A Maria Isabel ergueu tão alto o seu prestígio e foi, de tal maneira, desassombrada, forte e digna, que o seu exemplo constituiu uma lição espantosa e ficará na história da luta pela democracia. Ficará, também, como um título de orgulho para todas nós, mulheres!” 

Imagens: 

  1. Membros da Comissão Central do MUD. Da esquerda para a direita, sentados: Maria Isabel Aboim Inglês, Mário de Azevedo Gomes, Fernando Mayer Garção; em pé: Gustavo Soromenho, Mário Soares e Manuel Mendes. 1945.
    (Fotografia da Fundação Mário Soares)
  2. Candidatura de Norton de Matos às eleições presidenciais, comício de Lisboa (Voz do Operário). Isabel Aboim Inglês, Norton de Matos, Carvalhão Duarte, Câmara Reys, Mário de Azevedo Gomes, entre outros.  Fundação Mário Soares / Manuel Mendes/MNAC – Museu do Chiado, Disponível HTTP: http://www.casacomum.org/cc/visualizador?pasta=04654.000.038 (2021-3-2)

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