Caso “Ballet Rose”

10 Dezembro 2020

#Nestedia 10 de dezembro de 1967 o católico e puritano Portugal da ditadura, dos brandos costumes e do viver habitualmente, é abalado por notícias na imprensa britânica sobre um hediondo esquema de pedofilia, prostituição e abuso de menores envolvendo altas figuras do Estado Novo: o caso “Ballet Rose”.

A Polícia Judiciária, vigiada de perto pela PIDE, investiga uma rede de prostituição que operava desde o início dos anos 60 e sobre a qual vinham circulando rumores, envolvendo menores, nomeadamente crianças de nove e dez anos, por norma, provenientes das zonas mais pobres do país. O regime, desde o próprio Salazar ao diretor da PIDE, Silva Pais, tudo farão para abafar o caso ao mais alto nível de modo a evitar um escândalo envolvendo altas individualidades da sociedade e do regime. O ministro da Justiça Antunes Varela demitir-se-á em protesto contra o encobrimento do escândalo de corrupção de menores que Salazar silenciou, expulsando e proibindo de entrar no país advogados e jornalistas estrangeiros.

Já os portugueses Mário Soares, Francisco Sousa Tavares e Urbano Tavares Rodrigues são presos durante três meses pelo seu envolvimento na denúncia deste escândalo, saindo em liberdade em março de 1968. Mário Soares, acusado de espalhar notícias falsas sobre Portugal no estrangeiro e de ser a fonte da notícia dos periódicos internacionais, é preso em dezembro de 1967, passando o Natal em isolamento na cadeia de Caxias, seguindo-se a deportação para São Tomé.

Entre os envolvidos no escândalo sexual estão ministros do governo de Salazar, militares, grandes empresários ligados à indústria, banca e alta finança, membros da aristocracia ou da Igreja. A investigação em poucos resultados práticos se traduz e o caso acaba sem a condenação dos principais e mais notórios perpetradores, deixando incólumes as altas figuras do Estado Novo.

O falso moralismo da ditadura escondia assim um sórdido esquema de abuso sexual de menores, sendo este caso revelador, ainda hoje, do quão errónea é a narrativa do regime íntegro e incorruptível.

Imagem: “Sunday Telegraph e outros”, Dezembro de 1967, Fundação Mário Soares / DTC – Documentos Mário e Alice Chicó

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