Grupo do «34» ― Afonso Dias, Carlos Cruz, Joaquim Alberto e Xico Braga
Nomes: Afonso Dias, Carlos Cruz, Joaquim Alberto e Xico Braga
Grupo do “34”
No concelho de Vila Franca de Xira, um grupo de jovens católicos provenientes da Juventude Operária Católica (JOC) local, da Juventude Escolar Católica (JEC) ou da organização local SEJU, cria em 1968 uma casa comunitária que será um polo de grande atividade oposicionista, no número 34 do Bairro do Centro de Assistência Social Infantil (C.A.S.I.), instituição de solidariedade social de apoio à população carenciada, sobretudo crianças, criada em 1944 por padre goês e opositor da ditadura, Vasco Moniz.
Uma série de jovens ligados ao C.A.S.I. e ao padre Moniz, católicos progressistas, trabalhadores, estudantes, opositores do regime das mais diversas filiações políticas dinamizam a célebre casa do “34” que se torna um ponto de encontro de oposicionistas não apenas da região, mas também de outros pontos do país. Desenvolvem uma série de atividades culturais, espetáculos musicais, sessões de canto livre, sessões de poesia, colóquios e tertúlias. Francisco Fanhais foi um dos muitos que ali atuaram.
Muitas reuniões políticas eram camufladas pelos instrumentos musicais e as vozes das canções. Estes serões culturais decorriam, frequentemente, à sexta-feira, as célebres “sextas-feiras do 34”, que chegaram a atrair centenas de pessoas para autênticas sessões de propaganda contra o regime. Embora vigiado pela PIDE/DGS, o “34” dava apoio à atividade política legal e semilegal, nomeadamente na impressão e reprodução de documentos políticos, como panfletos e manifestos.
É lá que um dos seus elementos, José Pedro Soares será preso pela polícia política que encontrou assim um pretexto para entrar na casa, apreendendo grande quantidade de propaganda antifascista, nomeadamente exemplares do Jornal Avante! e cerca de 2 000 exemplares do panfleto intitulado “Abaixo a repressão fascista” e vários cartazes e dísticos com figuras revolucionárias e comunistas.
Do grupo do “34” sairão elementos que integrarão as várias forças da oposição, nomeadamente o Partido Comunista Português (PCP), Movimento Democrático Portuguêsês/Comissão Democrática Eleitoral (MDP/CDE), Liga de União e Ação Revolucionária (LUAR), Partido Revolucionário do Proletariado/Brigadas Revolucionárias (PRP/BR) ou Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP).
Biografias
Afonso Dias é cantor, compositor e letrista de canções, poeta, ator e encenador de teatro, “dizedor” de poesia. Nasceu a 13 de agosto de 1950 em Lisboa, mas cedo foi viver para o campo, começando a trabalhar aos 14 anos.
Lutou contra a ditadura, nomeadamente através da música. Fez parte da geração de músicos que ficaram conhecidos como “cantores de intervenção”. Participou durante os anos 1960 e 1970 em espetáculos com José Afonso, Francisco Fanhais, Samuel ou Pedro Barroso. Na viragem para os anos 1970, Afonso Dias participou ativamente na vida do grupo do “34”.
Depois do 25 de Abril de 1974, esteve entre os fundadores do Grupo de Ação Cultural (GAC), ligado à União Democrática Popular (UDP), no qual participou na produção e gravação de vários discos e em centenas de espetáculos entre 1974 e 1978. Em dezembro de 1975, Afonso Dias entra para Assembleia Constituinte como deputado da UDP, em substituição de Américo Duarte. Em 1979 gravou o seu primeiro álbum a solo O que vale a pena, com músicas suas e poemas seus e de Hélia Correia e José Fanha. Há cerca de 50 anos que canta e diz poesia, no país e pela Europa (Alemanha, Holanda e França), é membro do Conselho Consultivo da Associação José Afonso (AJA) e, desde 2001, realizou mais de 1600 sessões em escolas e esteve com mais de 160 000 alunos. Em 14 de Abril de 2016 foi-lhe conferido o título de Deputado Honorário pela Assembleia da República.
Xico (Francisco) Braga nasceu em 1950 e viveu em Azambuja até dezembro de 1969 e, depois, em Riachos, no Alentejo. No contexto da guerra colonial, sai de Portugal de forma legal no Verão de 1970 e ruma à Holanda. Neste país pede asilo político por recusar fazer a tropa e a guerra em África. No final de 1971, regressa a Portugal por decisão política. É entre finais da década de 1960 e início da década de 1970 que participa na atividade da casa do “34”, durante apenas seis meses, o suficiente para ter sido o período mais importante e definidor da sua vida. Lá fez amigos para o resto da vida e conheceu a futura mulher e a mãe dos seus filhos. A atividade política leva a que seja preso pela PIDE em maio de 1972, sendo libertado da Prisão de Peniche em 27 de abril de 1974.
Licenciado em Filosofia, desde 1980 que é professor, dinamizando vários projetos de índole social, cultural e educativa. Autor de várias obras, publicou livros de poesia, conto e literatura para crianças. É sócio da União dos Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) em representação da qual tem participado em colóquios em escolas e noutras atividades de esclarecimento em defesa da cidadania.
Carlos Alberto Marques de Almeida Cruz nasceu a 31 de janeiro de 1938 em Angeja, Aveiro. Aos 12 anos inicia-se na profissão de padeiro em Vila Franca de Xira, militando, ao mesmo tempo, na Juventude Operária Católica (JOC) local. Em 1955, com 17 anos, entra nos Seminários do Patriarcado (Santarém, Almada, Olivais) e em 1966 termina a formação em Teologia no Seminário dos Olivais, em Lisboa. Em julho de 1966, é enviado para assistente do padre Vasco Moniz em Vila Franca de Xira. Trabalha no Centro de Assistência Social Infantil (C.A.S.I.) e como professor de Religião e Moral na Escola Comercial e Industrial. Discute com os jovens os grandes problemas que afligiam a juventude da época: a guerra colonial, o analfabetismo, a insegurança no trabalho, a censura, a fome no Mundo ou a necessidade de apoio aos desertores da guerra colonial.
Pertenceu ao “SeJu” que editou o jornal Rampa, rapidamente proibido pela PIDE. No “SeJu” participou na preparação de uma procissão em que, em vez de andores com Santos, surgiam faixas e cartazes com mensagens políticas e sociais relativas ao desemprego na região, carências no ensino, analfabetismo, problemas na saúde, a situação do Hospital de Vila Franca, falta de habitação social, pobreza e abandono na infância.
Carlos Cruz vai ser um dos elementos mais ativos do “34”. Estimulou vários encontros clandestinos para formação da Comissão Democrática Eleitoral (CDE) no concelho e a organização de uma greve na Escola Industrial e Comercial. Em 1972 corta com a vida eclesiástica e começa a trabalhar no Sindicato dos Metalúrgicos do Distrito de Lisboa, onde fica até 1975. Perseguido pela PIDE, foi pela última vez preso em maio de 1972 na prisão de Caxias.
Em 1976 foi reintegrado no Ensino, como professor do secundário. Entre 1985 e 1996 esteve na direção e administração do semanário Regional O Ribatejo. Foi cooperante e professor em Moçambique de 1996 a 1998 e professor de português em Lausanne na Suíça de 1998 a 2013.
Joaquim Alberto ex-diácono católico, militante antifascista, membro da Liga de União e Ação Revolucionária (LUAR), exilado, preso político, cooperativista, animador de associações de emigrantes em França.
Joaquim Alberto Lopes Simões nasceu em Riachos, Torres Novas, em 1938. Fez os estudos secundários em Tomar, onde fez o curso de serralheiro. Trabalhou na construção de aviões em Alverca e, depois, nos CTT e na Renova.
Em 1959, com 21 anos, ingressou no Seminário dos Olivais, onde permaneceu até 1966, completando o curso superior de Teologia, não chegando, porém, a ser ordenado padre. Lidera o movimento de contestação que ocorreu dentro do Seminário e, em julho de 1966, é expulso. Em setembro instala-se numa casa de padres operários nos arredores de Paris. Em França vive o maio de 1968 e, no ano seguinte, regressa a Portugal, fixando-se em Vila Franca de Xira onde se liga ao grupo do “34” e trabalha no Centro de Assistência Social Infantil (C.A.S.I.). Vive no bairro do C.A.S.I em 1969 e 1970 e, ao ser mobilizado para o serviço militar, regressa a França. No exílio, trabalha com a comunidade emigrante e dirige temporariamente o jornal Fronteira. É em França que conhece José Afonso, que ficou em sua casa quando esperava pelo estúdio onde gravaria o célebre disco Cantigas do Maio. Data deste período a ligação à LUAR, organização em que desempenha importantes funções entre 1971 e 1973, e a sua prisão em Espanha em agosto de 1973.
No dia 25 de abril de 1974 estava preso em Salamanca e pouco depois regressa a Portugal. Envolve-se nas lutas da Reforma Agrária e no cooperativismo, sendo um dos dinamizadores da cooperativa agrícola “Comunal”, em Árgea, na região de Torres Novas, formada sobretudo por ex-exilados em França, alguns operários, outros intelectuais, outros militantes políticos ativos que estiveram presos até ao 25 de Abril.
Joaquim Alberto viveu depois em Moçambique durante 11 anos, onde se envolveu em projetos cooperativos e de reconstrução do país, regressou ao Alentejo e a Riachos, participando na vida autárquica e associativa local. Atualmente vive em França. É pai de três filhos e avô de quatro netas.
Data de Recolha: 12.02.2020
Palavras – Chave: Bairro do Casi – Centro de apoio social e infantil, Coletividades, Católicos, Solidariedade, Prisão, LUAR, Sindicato, Luta Armada, Tortura, 25 de Abril, Cidadania.